LSM- A discussão sobre a restinga de Maricá costuma ser tratada apenas como uma pauta ambiental. Mas, para quem nasceu e vive em Zacarias, o debate é também sobre segurança pública, invasões, violência, abandono e futuro.
Washington Costa, presidente da Associação de Moradores e Pescadores de Zacarias, conhece essa realidade de perto. Nascido na comunidade, de família que vive ali há mais de 150 anos, cresceu pescando na restinga com o pai. Na infância, andava de bicicleta, acampava e vivia de perto a força da natureza.
Com o passar dos anos, no entanto, essa mesma restinga passou a ser associada também a episódios de medo e insegurança. Washington afirma que a área, quando fica sem presença e controle, se torna vulnerável a crimes, queimadas, invasões e descarte irregular de lixo.
“Já presenciei assassinato na restinga. Claro que não vi uma pessoa matando a outra, mas eu pescando à noite, a 30, 40 metros, escutava os tiros. No outro dia, a gente ia lá e via que a pessoa estava morta”, relata.
Para o líder comunitário, esse tipo de relato desmonta a ideia de que deixar uma área intocada é o suficiente para protegê-la. Na visão dele, o abandono não protege. O abandono expõe.
Washington também já viu carros sendo incendiados dentro da área. O fogo, segundo ele, se espalhava pela vegetação e destruía trechos importantes da mata.
“Esse fogo alastrava, acabava afetando a mata. Às vezes queimava 10, 15 hectares. A gente via os animais todos queimados. Era tartaruga, jabuti, cobra, tatu. Então as coisas vão se acabando se ficarem largadas”, diz.
É por conhecer esse histórico que Washington defende uma visão mais prática sobre a proteção da restinga. Para ele, é preciso encarar a realidade sem romantizar. Uma restinga sem, sem fiscalização constante e sem ordenamento vira alvo fácil para invasores, queimadas, descarte irregular de lixo e violência.
É nesse ponto que Washington faz uma defesa mais direta de MARAEY. Para ele, o projeto representa uma chance de evitar que a restinga volte a ser terra de ninguém. Em vez de abandono, presença. Em vez de invasão, ordenamento. Em vez de insegurança, fiscalização. Em vez de promessa distante, obras, emprego, saneamento e regularização.
“Se o contêiner de MARAEY saísse daqui, Zacarias iria virar uma grande favela, porque há uns anos tentaram invadir as terras”, afirma. “Prefiro 80% preservado do que 100% largado”, resume ele, lembrando que o empreendimento prevê 81% da área de 840 hectares preservada ou regenerada.
Na visão do presidente da associação, a chegada do empreendimento traz benefícios concretos para Zacarias: saneamento básico, calçamento, diálogo com os moradores, renda e capacitação. A regularização fundiária é uma das principais demandas da comunidade. “O que a gente quer é que mundo tenha a documentação de suas casas. E vamos ter”, diz.
Ele também rebate as críticas de que MARAEY poderia ameaçar Zacarias. Segundo Washington, a empresa tem dialogado com a comunidade, com o poder público e com os órgãos ambientais. “A empresa chegou, conversa com a comunidade, conversa com os órgãos competentes. Ela não invadiu nada. Ela comprou. E respeita as licenças ambientais”, afirma.
Para ele, a diferença em relação ao passado está justamente no diálogo. Washington lembra que antigos donos de terras chegaram a cercar a comunidade, deixando os moradores com a sensação de estarem presos dentro do próprio território.
“Antigamente, outros já vieram e cercaram a gente aqui dentro, como se a gente estivesse preso igual gado no curral. Graças a Deus, eles conversam, vão ao prefeito, vão ao juiz, vão ao INEA”, diz.
Além da segurança e da proteção ambiental, Washington vê no projeto uma oportunidade de gerar renda para os jovens de Zacarias. Sem emprego, afirma, muitos acabam saindo da comunidade, e até a pesca artesanal corre o risco de desaparecer. “Hoje, os nossos filhos vão trabalhar onde? O município não vai sustentar. Não tem empresas no município que vão abranger esse monte de gente que está vindo para a cidade”, afirma.
“Eles estão dando curso para capacitar o pessoal para trabalhar, quem vai ser gerente, quem vai ser camareira, chefe de cozinha. Isso vai ser ótimo para a comunidade. E a gente vai ter onde vender nossos peixes, nosso artesanato. Vai atrair turista. Arraial, Búzios, Cabo Frio vivem em cima do turismo. Maricá também tem que focar no turismo”, conclui.








